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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sufixação ("-oso", "-osa")

Sufixação"-oso","-osa"
Não é novidade para ninguém que, em português, o capítulo de ortografia oferece várias dificuldades. Todos já ficamos confusos alguma vez em relação ao uso do "s" e do "x", do "x" e do "ch".
Muitas pessoas dizem, por exemplo, que na palavra "lixo" o "x" tem som de "ch". Nada disso.
Na palavra "cachorro", por exemplo, o "ch" é que tem som de "x", e não o contrário! Em "lixo", o "x" tem o som dele mesmo, afinal o nome da letra é "xis"!
Vamos ver a canção "Olhar 43", de Paulo Ricardo, para comentarmos outro caso que deixa as pessoas em dúvida:
... é perigoso o seu sorriso
é um sorriso assim, jocoso
impreciso, diria misterioso
indecifrável riso de mulher...
Vimos o emprego das palavras "perigoso", "jocoso", "misterioso", palavrinhas que têm o sufixo "-oso".
É um sufixo que indica a idéia de posse plena, de abundância, de existência em grande quantidade. É bom lembrar: o sufixo "-oso" é sempre com "s", jamais com "z".
perigoso = com muito perigo
misterioso = cheio de mistério
jocoso = com muita jocosidade
Tomemos outro exemplo, tirado à canção "Vitoriosa", de Ivan Lins. A letra é de Vítor Martins:
... quero sua risada mais gostosa
esse seu jeito de achar
que a vida pode ser maravilhosa.
Quero sua alegria escandalosa
vitoriosa por não ter vergonha
de aprender como se goza.
Nessa canção vimos o sufixo "-oso" no feminino. "Gostosa", "maravilhosa", "escandalosa" etc. Sempre com "s"! E vimos também a palavra "goza", com "z". Mas ela não tem nada a ver com a nossa história. "Goza" é forma do verbo "gozar", com "z".
Então, cuidado! Não basta que o som seja semelhante a "oso" e "osa" para colocarmos o "s".
Precisamos entender o significado da palavra. Se for sufixo designando posse plena ou grande quantidade, aí, sim, a grafia correta é com "s".

Derivação parassintética ("esvaziou" ou "desvaziou")

Derivação parassintética"Esvaziou" ou "desvaziou"?
Houve um lance incrível de futebol em que o árbitro anulou um gol alegando que a bola estava furada. O que será que aconteceu quando o jogador chutou?
A bola murchou, a bola esvaziou-se.
Um jogador do time disse que a bola desvaziou. O correto seria dizer que a bola esvaziou, do verbo "esvaziar". É perfeitamente compreensível esse desvio cometido pelo jogador porque os prefixos "de-" e "des-" entram na formação de muitas palavras da língua e possuem valores diversos.
Nem sempre o "des-" indica negação. Recentemente um cantor manifestou que "desconcordava", e muita gente o censurou dizendo que ele não sabia português. Porém basta uma consulta aos dicionários para ver que o verbo "desconcordar" existe, sim, e é sinônimo de "discordar".
Também é preciso levar em conta que algumas palavras têm forma dupla, como "esgarrado" e "desgarrado", "esgarrar" e "desgarrar", "espertar" e "despertar" e tantas outras em que entra ou não entra o elemento "de-" ou o elemento "des-", com vários valores. Esse valor pode ser ora negativo, ora positivo. Às vezes, como aponta o Aurélio, chega a ter valor de reiteração, como ocorre com a palavra "deslavrar", que quer dizer "lavrar de novo".

Derivação imprópria ("comício monstro")

Derivação imprópria "comício monstro"
É comum ouvirmos expressões como "manifestação monstro", "concerto monstro" ou "comício monstro". Se olharmos no dicionário, vamos conferir que "monstro" é, primeiramente, um ser assustador, pavoroso. Trata-se em primeiro lugar de um nome, um substantivo. Mas veremos também que "monstro" é adjetivo, com a acepção de "muito grande", "fora do comum".


Quando dizemos "espetáculo monstro", por exemplo, usamos a palavra "monstro" como adjetivo, para qualificar. Passa a significar "grande", "muito grande", "excessivamente grande". O emprego de uma palavra fora de sua classe gramatical usual tem um nome: derivação imprópria.


Imprópria por quê? Porque essa derivação foge ao padrão da língua, isto é, determinada palavra está sendo utilizada fora do padrão habitual no qual ela é empregada. Além disso, a derivação ocorre em um processo diferente do usual.
Normalmente, quando queremos fazer uma palavra derivar de outra, acrescentamos prefixos ou sufixos, como podemos observar nos exemplos abaixo:
honesto - desonesto honesto - honestidadefeliz - infelizf eliz - felicidade
A derivação imprópria supõe um processo diferente, bastante enriquecedor. Vejamos a seguir trechos de duas canções em que aparecem exemplos de derivação.
A primeira é "Pobre paulista", gravada pelo Ira!:


Todos os não se agitam

toda adolescência acata

e a minha mente gira

e toda ilusão se acaba...


A outra canção é "Vou tirar você do dicionário", gravada por Zélia Duncan:


Eu vou tirar você de mim assim que descobrir

com quantos nãos se faz um sim

eu vou tirar o sentimento do meu pensamento

sua imagem e semelhança vou parar o movimento

a qualquer momento procurar outra lembrança.


Nas duas letras, a palavra "não" é utilizada como substantivo. "Não" normalmente é um advérbio e modifica verbos: "não vou", "não faço", "não digo". Nas letras que vimos, a palavra aparece como substantivo e tem de ser tratada como tal. Por isso deve fazer a flexão no plural:
"todos os nãos se agitam" "com quantos nãos se faz um sim"
Não escreva, portanto, "os não", mas sempre "os nãos".

Contração ("embora", "aguardente", "daqui")

Contração"embora", "aguardente", "daqui"
Muitas palavras que usamos surgiram da fusão de outras. Assim, por exemplo, a palavra "embora" deriva da fusão de TRÊS outras palavras:

"em", "boa" e "hora"

Outros exemplos:

pernalta = fusão de "perna" e "alta"
aguardente = fusão de "água" e "ardente"

Uma soma muito comum é a das preposições, como "de", "em" e "por", com palavras de outras classes gramaticais. Exemplos:
daqui = soma da preposição "de" com a palavra "aqui"
nesta = soma da preposição "em" com a palavra "esta"
pelo = soma da preposição "por" com a palavra "o"
A essa soma de palavras damos o nome de "contração". Veja um trecho da letra da canção "Até o fim", gravada por Chico Buarque:

... Minha mulher fugiu com o dono da venda, o que será de mim?Eu já nem lembro pronde mesmo que vou, mas vou até o fim.Como já disse, era um anjo safado, o chato dum querubim
que decretou que eu tava predestinado a ser todo ruim...

A expressão "dum", derivada da fusão da preposição "de" com o artigo indefinido "um", é perfeitamente aceita e abonada pelos dicionários, assim como "num", que é a fusão da preposição "em" com o artigo indefinido "um":

Ela gosta de um rapaz esquisito. / Ela gosta dum rapaz esquisito.
Ele mora em uma rua escura. / Ele mora numa rua escura.

Por outro lado, algumas fusões não têm tradição na língua, como "pronde", que também está na letra de Chico Buarque:
Pronde mesmo que vou? / Pra onde mesmo que vou?

"Pronde" é uma fusão um tanto radical. Não é, ao menos por enquanto, abonada ou registrada pelos dicionários. Convém usá-la somente em textos em que a linguagem é utilizada com mais liberdade e evitá-la nos textos mais formais.
Veja as contrações mais consagradas, que podemos usar sem susto:
no / na
dum / duma
num / numa
neste / nesta
daquele / daquela
naquele / naquela
Na dúvida, consulte o dicionário. Veja se a contração está oficializada, se tem registro no padrão formal da língua.

Composição ("sanguessuga")

Será que toda palavra composta tem hífen?
Palavra composta é aquela em cuja formação entram pelo menos duas ou mais palavras. Extraímos um exemplo da música a seguir, chamada "Não enche", de Caetano Veloso.
Harpia, aranha
sabedoria de rapina e de enredar, de enredar.
Perua, piranha
minha energia é que mantém você suspensa no ar
Pra rua!, se manda
sai do meu sangue, sanguessuga, que só sabe sugar.
Pirata, malandra
me deixa gozar, me deixa gozar
me deixa gozar, me deixa gozar.
Caetano Veloso aí aponta o significado da palavra "sanguessuga" ao dizer "sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar". O bichinho sanguessuga faz justamente isso: suga o sangue. A palavra em questão é composta, embora ela tenha um processo de formação interessante. Normalmente, quando um verbo se associa a um substantivo para formar uma palavra composta, a ordem da combinação é verbo e depois substantivo.Palavras desse tipo não faltam na língua: "toca-fitas", "guarda-pó", "mata-mosquito" etc. No exemplo acima, ocorreu o contrário. O substantivo "sangue" veio antes, e o verbo ficou na segunda posição. A palavra é composta, grafada com dois esses e sem hífen: "sanguessuga".