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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O papel do jogo na educação das crianças



O que acontece durante um jogo de crianças? Aos olhos de um observador desatento, apenas brincadeiras, coisas sem importância. Aos olhos de um pesquisador, ou de um educador, tantas coisas importantes estão ocorrendo: assimilação e apropriação da realidade humana, construção de hipóteses, elaboração de soluções para problemas, enriquecimento da personalidade.Tudo isto é demonstrado neste texto a partir da análise de uma situação de brincadeira. Tomando a importância da brincadeira no desenvolvimento infantil, a autora conclui expondo a necessidade de se incluir o jogo quando se sistematiza um projeto pedagógico.


"(...) o jogo permite uma assimilação e apropriação da realidade humana pelas crianças já que este "não surge de uma fantasia artística, arbitrariamente construída no mundo imaginário da brincadeira infantil; a própria fantasia da criança é engendrada pelo jogo, surgindo precisamente neste caminho pelo qual a criança penetra na realidade.""Por último, é preciso sublinhar que, no jogo, relações reais de interação entre as crianças ocorrem com a mesma intensidade que as lúdicas. Ao mesmo tempo em que os meninos desempenham papéis de trabalhadores e fazem a "avalanche" ter existência real, discutem entre si como o conteúdo do jogo deve ser elaborado. Assim, a brincadeira aparece como fator de organização entre as crianças que compreendem, durante a atividade, necessidades de uma escuta complementar e de ações complementares que condicionam o próprio desenrolar do tema." "Claro está em que, se as crianças brincam de maneira independente em casa, com os amigos ou parentes, a prática e a história nos têm revelado que elas também brincam, e muito, na escola. O fato é que, nem sempre, suas brincadeiras são levadas em conta pelo currículo pré-escolar e quando o são aparecem apenas como recreação ou possibilidade de desgaste de energia para que, em sala, as crianças possam concentrar-se em atividades didáticas dirigidas.A questão que se coloca, nesse artigo, é como levar em conta o jogo infantil ao serem elaborados planos pedagógicos pré-escolares, considerando-se o exposto até agora. Ou seja, como transformar o jogo infantil em recurso pedagógico pré-escolar de construção de conhecimento pelas crianças e como instrumento de organização autônomo e independente das mesmas." "Para garantir o aparecimento do jogo independente, faz-se necessário:• que a rotina escolar contemple períodos razoavelmente longos entre as atividades dirigidas, para que as crianças sintam-se à vontade para brincar;• que existam materiais variados, organizados de maneira clara e acessível às crianças, de tal forma que possam deflagrar e facilitar o aparecimento das brincadeiras entre elas. O acesso e a organização dos materiais devem levar em conta a idade das crianças, sendo seu uso coordenado pelo adulto responsável pelo grupo. (...)• que a sala onde as crianças passam a maior parte de seu tempo tenha uma configuração visual e espacial propícia ao desenvolvimento da imaginação. (...)• que haja um período em que as crianças e o adulto responsável pelo grupo possam conversar sobre a brincadeira que vivenciaram, sobre as questões que se colocaram, o material que utilizaram, os personagens que assumiram, as crianças com as quais interagiram;• que o jogo seja incorporado no currículo como um todo, e as questões colocadas no seu desenrolar possam fazer parte de pesquisas desenvolvidas em atividades dirigidas pelas crianças; ampliadas através de passeios, observação da natureza, projeção de vídeos, escuta de rádio, música, leituras etc.;• que o adulto seja elemento integrante das brincadeiras, ora como observador e organizador, ora como personagem que explicita ou questiona e enriquece o desenrolar da trama, ora como elo entre as crianças e os objetos.(...)"

Para Piaget e Vygotsky, os jogos são atividades lúdicas


Para Piaget e Vygotsky, os jogos são atividades lúdicas que a criança desenvolve,
sendo que, em cada fase do amadurecimento da criança, o jogo tem suas características
próprias e sua importância.
De acordo com os estudos de Piaget, em especial sobre a gênese do conhecimento, o
jogo é tido como um processo de assimilação: “se o ato de inteligência culmina num equilíbrio
entre a assimilação e a acomodação [...] pode-se dizer que o jogo é essencialmente
assimilação, ou assimilação predominando sobre a acomodação”.

Ao analisar o desenvolvimento do raciocínio, Piaget destaca a importância da vida
social para a conquista da coerência interna e da objetividade, pois, por intermédio dos jogos e
das brincadeiras, a criança tem a oportunidade de tomar consciência de si mesma e é aí que
as trocas sociais acontecem, principalmente mediante a narração e a discussão, expressando-
se, sobretudo com relação aos pensamentos dos outros.

Para Vygotsky, os jogos e as brincadeiras são de extrema importância, pois “o objeto
que [a criança] usa nas suas brincadeiras serve como uma representação da realidade ausente
e ajuda a criança a separar objeto e significado. Constitui um passo importante no percurso
que a levará a ser capaz de, como no pensamento adulto, desvincular-se totalmente das
situações concretas”.


Sob o ponto de vista do desenvolvimento da criança, a brincadeira traz vantagens
sociais, cognitivas e afetivas. Sob o ponto de vista psicológico, a brincadeira e o jogo
preenchem uma atividade básica da criança, ou seja, são o motivo para a ação.
Os jogos e as brincadeiras, na concepção de Vygotsky, têm um importante papel,
criando uma zona de desenvolvimento proximal na criança e proporcionando influência no seu
desenvolvimento. A criança usa objetos concretos atribuindo-lhe outro papel. A situação é,
então, definida pelo significado da brincadeira e não pelos elementos reais que aparecem. A
criança se relaciona com o significado em questão e não com os objetos concretos que tem
nas mãos.


Assim, “no brinquedo, a criança comporta-se de forma mais avançada do que nas
atividades da vida real e também aprende a separar objeto de significado”.